terça-feira, 31 de março de 2015

Reminiscências insones

Caramba. 

Tem mais de três anos que eu não apareço por aqui. Em meu último post nem existia whatsapp, nem spotify. Ainda rolava msn e hangout era gtalk.

Mas era sobre memórias mesmo que fiquei a fim de escrever. Às vezes me pego relembrando cenas específicas que se passaram há 10, 15, 18 anos. Cenas corriqueiras. Em muitas delas estão músicas no contexto. Outras tem fotografias. 

Numa delas aconteceu em 1996. 19 anos atrás. Eu morava no Crato (CE) e, num fim de semana, fui com alguns amigos a um balneário, chamado Granjeiro. Passamos o fim de semana por lá. Me lembro claramente do chalé onde ficamos, das noites amanhecidas. 

Naquela o disco que eu mais ouvia era Joia, de Caetano Veloso. Um disco fora da curva de Caetano. "Todo o dia o sol levanta e a gente canta ao sol de todo dia". Canto de um povo de um lugar é o nome dessa música. 

Noutra ocasião, cinco anos depois, em 2001, sinto ainda hoje o cheiro da Saúva do Bar do Bigode, um boteco do tipo pé sujo que fazia a alegria dos estudantes comunicação, artes e ciências sociais da UFPE. 

A gente lembra de algumas cenas que vivemos, daí bate uma nostalgia, vontade de reencontrar os lugares, as pessoas, ouvir as músicas, ler os livros que lemos, ver os filmes que marcaram, comer as comidas que comemos. 

Só que não é mais a mesma coisa. E, pensando bem, é bom que não seja, né. 

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Matemática Privatarista: Brasil gastou R$ 87,6 bilhões para vender suas estatais por R$ 85,2 bilhões


Amigos, é chocante.

Estou lendo o tão comentado livro A Privataria Tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Jr. Já vi algumas coisas impressionantes na história do Brasil em relação a corrupção e roubo de dinheiro público, mas confesso que foquei chocado com a maneira como foram feitas as privatizações das estatais no país.

Foi descarado. Foi um genocídio de dinheiro público, se me permitem a expressão.

Observem como são as coisas: Em 1998, o presidente FHC pegou o sistema de telefonia inteiro do Brasil, a Telebrás, e privatizou pela bagatela de R$ 22 bilhões. Inacreditavelmente, dois anos antes, a União investira R$ 21 bilhões em modernização da estatal (sic).

Como se não bastasse, dos R$ 8 bilhões de entrada que qualquer grupo interessado na compra teria que desembolsar , o BNDES financiou R$ 4 bilhões. Para o restante da dívida, o BNDES financiou a aquisição das chamadas “moedas podres”, títulos públicos adquiridos pela metade do que valiam.  

Não poderia existir negócio pior para o sistema de telefonia do país. Por isto que hoje as empresas fazem o que querem com o consumidor.

Outro exemplo, na privatização da Companhia Siderúrgica Nacional, a famosa CSN, maior siderúrgica da América Latina, construída por Getúlio Vargas em troca do apoio aos EUA na 2ª Guerra. A empresa foi vendida por R$ 1,05 bilhão. Destes, R$ 1 bilhão foi pago pelos compradores em moedas podres. Essas moedas podres foram leiloadas pelo BNDES, com prazo de 12 anos para pagá-las.

Em outras palavras, o governo aceitou títulos que não representavam o valor real e ainda emprestou dinheiro para quem quisesse lhe comprar esses títulos, com carência de 12 para pagar.

É mole?

Depois de ter vendido a Vale, Embraer, Usiminas, Copesul, CSN, Light, Acesita e as ferrovias, o governo de Fernando Henrique Cardoso afirmava ter arrecadado R$ 85,2 bilhões com as privatizações. Só que, pasmem, para vender as estatais, o governo gastou R$ 87,6 bilhões. A conta é do livro O Brasil Privatizado e leva em consideração as vendas a prazo com dinheiro já contabilizado, mas fora dos cofres públicos; dívidas absorvidas; juros de 15% sobre dívidas assumidas; investimentos nas estatais antes do leilão; juros sobre tais investimentos; uso de moedas podres e mais R$ 1,7 bilhão deixado nos cofres das estatais.

Vale a pena a leitura do livro. Não sou petista, nem anti-tucano. Sou jornalista. Como material jornalístico, é uma excelente leitura de como nosso país é marcado geneticamente por ladrões, por assaltantes de dinheiro público. 

Lamentável e triste.


domingo, 8 de janeiro de 2012

Pirassununga: nostalgia e cachoeira


Na visita que fiz neste domingo ao município de Pirassununga, região nordeste de São Paulo, só lembrei dos meus amigos ouricurienses, ao passar em frente à sede da Companhia Müller de Bebidas, que fabrica a homérica cachaça 51, distribuída em mais de 30 países e líder nacional do gênero.

A indústria fica à margem da Rodovia Anhangüera. É gigantesca, tem capacidade de produção de 60 mil garrafas de 51 por hora. Haja junkie para beber tanta cachaça. 

Já bebi muita 51 na vida, mas bem menos que muitos dos meus amigos pernambucanos, até hoje "apreciadores" da "iguaria". Há algum tempo a bebida foi rebaixada de minha preferência, mas passar em frente à fábrica principal da 51 teve um simbologia interessante para mim.

Cachoeira de Emas
Mas fora a 51, neste domingo fui conhecer mesmo, junto com meus sogros, minha esposa e meu filho, a Cachoeira de Emas, um ponto turístico e distrito de Pirassununga. Lá funcionava uma usina hidrelétrica, que represava o rio Mogi-guaçu. 

A usina, ao que tudo indica, não produz mais energia elétrica, mas as quedas d'água continuam e fomos lá tentar mostrar ao Ícaro a tentativa dos peixes de subir as escadas contra a correnteza. Tinham poucos e pequenos peixes. A Piracema, época em que fazem o percurso, acontece no mês de dezembro. O rio Mogi estava cheio, correnteza forte. Ainda assim, havia várias pessoas tomando banho numa demarcada por bóias. E o dia estava mesmo propício para um banho. Ícaro foi o primeiro a se manifestar, principalmente quando viu os banhistas. Mas ninguém entrou na água. No máximo, ele molhou os pés na água fria do Mogi.

Almoçamos no principal restaurante lá de Cachoeira de Emas. O cardápio prometia 15 pratos diferentes de peixe. Não contei, mas comi vários pratos à vontade, entre eles não estavam os favoritos Pirarucu, Surubim e Salmão. Mas saí com peixe até a goela.

No distrito ainda tem a Academia da Força Aérea Brasileira, onde fica a Esquadrilha da Fumaça e também este tanque de guerra do Exército. 

Foi um domingo feliz.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Um palmense em São Paulo

Do dia 28 ao dia 31 de dezembro, visitei, junto com minha esposa, a capital paulista. Já tinha estado lá, mas rapidamente, em 2008. Desta vez, fomos fazer turismo. Visitei vários lugares históricos, museus, ruas e esquinas que são história na cultura paulista e também brasileira. 

O primeiro lugar que fomos foi ao Mercado Municipal, comer o tradicional sanduíche de pão com mortadela, no Hocca Bar. Quando chegamos no local, minha primeira impressão foi a de uma indústria com sua capacidade instalada máxima. Um formigueiro de gente, todos também em busca de comer no local. Para se sentar, foi preciso ficar ao lado de uma mesa ocupada, esperando a pessoa terminar para, rapidamente, sentar. Para comprar o pedido, a fila fazia uma volta em torno do bar. Enfim, em véspera de ano novo, com a maioria dos paulistanos fora, saí com a idéia de que, em 2014, aquilo ali vai pifar. Mas estrutura à parte, o sanduíche é delicioso, um exagero de mortadela Ceratti. Comi ainda (quase "empurrando") um pastel de carne seca com catupiry, também muito gostoso. 

Além do sanduíche, o mercadão de São Paulo tem um universo de frutas, muitas eu nunca tinha visto,  carnes, salames, temperos e muitos, muitos tipos de queijo. Você passa tranquilo um dia inteiro só lá.

Vou revelar uma matutice que me acometeu: em frente ao mercadão, deparo-me no trânsito com um Corolla, com placas de Palmas-TO. Num rompante de caboquice, acenei e cumprimentei as duas pessoas dentro do carro, falando que eu também era de lá. Os passageiros retribuíram meu cumprimento. Meus acompanhantes riram de mim. Depois é que fui me dar conta que tem um monte de gente que manda emplacar o carro no Tocantins, por conta do IPVA mais barato. Mico total. rssss

Rodando
Ficamos num hotel na avenida São Luís, no centro de São Paulo, próximo aos famosos edíficios Itália, e Copan (aquele que sempre aparece nas novelas, projetado por Oscar Niemeyer, que é uma espécie de S). Andar no centro de São Paulo não é difícil. Com um mapa simples, atenção e observando as sinalizações, você vai a qualquer lugar por lá. Foi desse jeito que eu e Isis vistamos o Theatro Municipal, o viaduto do Chá, Vale do Anhangabaú, a rua Líbero Badaró, o edifício do Banespa, o Mosteiro de São Bento, a Rua 25 de Março e muitos outros locais que valem a pena a visita. 

No centro, o que me chamou atenção foi o imenso número de chineses. Eles dominam a 25 de Março e todas as adjacências! Há mercados com produtos só para chineses, encontrei até um jornal em mandarim, distribuído gratuitamente na Rua José Paulino. Outra coisa interessante na Paulino, rua conhecida pelas lojas de roupas, que fiquei sabendo é o número imenso de imigrantes ilegais, a maioria bolivianos e peruanos, que trabalham em regime de quase escravidão nas confecções, que ficam no andar de cima das lojas.

Museus
Ah, os museus. Como são muitos, diversificados, dedicados às milhares de manifestações artísticas da mente humana. Uma pena que não houve tempo visitá-los todos. Na nossa exígua passagem, visitamos o Museu da Língua Portuguesa. 

Próximo a este museu tem uma avenida chamada Prestes Maia, que tem um prédio imenso, de mais de vinte andares, que foi invadido por moradores sem teto. Há muitas pichações também nas paredes da maioria dos prédios do centro de São Paulo, o que dá um ar de decadência.


O museu da Língua Portuguesa fica na estação ferroviária da Luz, que é um espetáculo à parte, toda de metal. O museu estava com uma exposição sobre a vida e a obra do escritor Oswald de Andrade, um pândego, que tirou onda de tudo e todos. Gostei muito. Oswald marcou a história da arte brasileira não somente porque participou da Semana de Arte Moderna de 1922, mas porque era um homem de personalidade, de opinião, de várias mulheres e que não tinha receio de esculachar o Brasil e a burguesia pedante (da qual ele fazia parte).

"A situação 'revolucionária' desta bosta mental sul-americana apreesentava-se assim: o contrário do burguês não era o proletário - era o boêmio! As massas, ignoradas no território e como hoje, sob a completa devassidão econômica dos políticos e dos ricos. Os intelectuais brincando de roda." Esta foi uma amostra grátis que reitrei das pérolas de Oswald.

A história da nossa língua também é muito divertida e interativa. Aprende-se fácil desde as origens da língua, na região indo-européia, passando pelo latim vulgar, pela consolidação do português até os dias de hoje. Na linha do tempo da história da língua, entre as várias fotos, há esta aí, da Escola José Coriolano, em Ouricuri. 

Um detalhe: na mesma hora que entramos nos museu, entrou também o jornalista Fernando Rocha, aquele que apresenta o programa Bem Estar, da Globo. É óbvio dizer que não fui cumprimentá-lo. Muita matutice.






A Pinacoteca foi outro museu que visitamos. Um prédio belíssimo, inaugurado em 1905 pelo arquiteto Ramos de Azevedo, e abrigou o Liceu de Artes e Ofícios. É o mais antigo museu de São Paulo. Um acervo impressionante, várias exposições ao mesmo tempo. Interatividade. Cara, mulher, moço, dona, só indo lá e conferindo. Um banho de cultura.





Reencontro

 








 Em São Paulo, reencontei um amigo de infância, que não via há 15 anos. Humberto veio nos encontrar no hotel e nos proporcionou horas de agradável conversa e passeios interessantes. Um deles foi o chopp que tomamos no Bar Brahma, considerado o mais antigo da cidade de São Paulo, que fica na famosa esquina da Avenida Ipiranga com a Avenida São João, imortalizada por Caetano Veloso. 

Visitamos também, junto com ele, a Avenida Paulista, que tinha uma linda decoração natalina. Lá também visitei a maior Livraria Cultura que já vi, no Conjunto Nacional. São várias livrarias cultura, uma ao lado e em cima da outra. Um dia é pouco para se perder naquele universo de livros, de cultura. 


O resumo que faço deste périplo pela capital paulista é: uma pena o tempo ter sido contra nós. 








sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Do Angico, e não do Jacaré




E ontem, participando de uma entrevista coletiva com o governador Siqueira Campos, após todas as perguntas serem feitas, perguntei a ele uma coisa que eu sempre quis perguntar:

Onde tinha nascido o Pacífico Siqueira Campos, pai do governador, e se ele, Siqueira, nascera, como dizem, no povoado do Jacaré, em Ouricuri.

Siqueira respondeu que seu pai nasceu em Ouricuri, mais precisamente no povoado do Angico. Quem é de lá sabe onde é. E confirmou que já fez várias visitas à cidade e que tem parentes por lá. Já ele próprio nasceu em Juazeiro do Norte, na Rua da Glória. "A casa existe até hoje."

Querendo ou não, com defeitos ou virtudes, o fato é que Ouricuri tem um descendente que "criou um estado e inscreveu uma estrela na bandeira do Brasil", como ele se define.

sábado, 29 de outubro de 2011

A resposta do Supremo ao Tocantins



Por Aquiles Lins

No mês passado, o Tocantins, um jovem rebelde de 23 anos, bateu na porta do Supremo Tribunal Federal, um colegiado austero e lúcido, com 121 anos de idade, e formado por 11 ministros.

- Seu Supremo (toc toc toc).

- Quem está aí? – perguntou um dos ministros.

- Sou eu, o Tocantins.

- Tocantins? – Indagou o ministro, meio irritado. – Ah, tá, o Tocantins, tsc.

O ministro do Supremo abriu a pequena janela da porta, para se certificar sobre o visitante que lhe procurara. Reconhecendo o Tocantins, o ministro virou para dentro e falou:

- Pessoal, o Tocantins está aqui.

A reação dos outros ministros do Supremo foi a de receber uma visita indesejada e impertinente e caíram em uníssono:

- Hahahahahahahahahahahah. Deixe ele entrar, vamos ver o que é desta vez.

O Tocantins entrou. De cara, sentiu que o clima não estava muito amistoso. Mas com seu jeitão rebelde, durão, não deu bola para o mau humor do Supremo e foi adentrando no palácio.

- Vim aqui questionar a constitucionalidade de duas leis estaduais, que vinculam o aumento dos salários dos Procuradores do Estado e dos Defensores Públicos com o aumento de salário de vocês, ministros.  – O Tocantins foi direto ao ponto.

- Outra vez, Tocantins? – Questionou um dos ministros mais ranzinzas.  – Você não se cansa? – Emendou.

- Não me canso. Sou jovem, estou aprendendo ainda esse negócio de leis, – justificou o Tocantins.

Os ministros se entreolharam com um meio sorriso na boca e levantavam as sobrancelhas, como se perguntando uns aos outros quem iria responder ao jovem e transgressor Tocantins.

- Tocantins, – começou o ministro ranzinza - não achas que já está na hora de parar de vir aqui fazer papel de palhaço? Não achas que já não espancou demais a Constituição, que nada tem a ver com seus rompantes de pit bul adolescente?

O ministro do Supremo levantou-se de sua cadeira e foi sentar-se ao lado do Tocantins. Olhando nos olhos do jovem, falou:

- Você desapropria terras que têm dono, declarando-as de interesse público, sem ao menos se preocupar com os proprietários, mandando às fezes o Estado de Direito e a  propriedade privada. Você aprova leis absurdas, criando cargos comissionados, desprezando completamente a meritocracia em favor de cabos eleitorais. 

O Tocantins percebeu que não tinha sido uma boa hora para ir ao Supremo. O ministro ranzinza continuou:

- Pior, nós defendemos a Constituição dos seus disparates, declarando a inconstitucionalidade dessa sua lei absurda. Mas você, como se zombasse dos nossos cabelos brancos, foi lá, teimou, e aplicou um novo soco na Constituição, aprovando outra lei que assegurava aos comissionados o direito de se beneficiarem de dinheiro público, sem dar as condições iguais para que todos pudessem concorrer ao ingresso no serviço público.

O Tocantins tentou esboçar uma reação, como um jovem macho que, sem argumentos, tenta fazer valer sua vontade:

- Mas a lei era legal. Eu ia fazer o concurso.

- E por que até agora não fez? Ein? Demos um ano de prazo para você resolver essa baderna, realizar concurso público. Mas até agora você só nos enrolou.

Outro ministro, de nariz adunco, tomou a palavra:

- Não bastasse lotar a administração pública de servidores comissionados, você ainda desprezou aqueles que entraram por seleção pública, por concurso. Aprovou uma lei concedendo reajuste de 25% para os funcionários concursados, sancionou-a, deixou-a em vigor por 20 dias e depois revogou-a. Me diga, olhando nos meus olhos, isto é certo?

Acuado, o Tocantins balbuciou meio que para ele mesmo uma resposta.

- Mas, mas um aumento daquele ia me quebrar.

- Por que então você fez aquele disparate virar lei? Pensasse antes de cometer esta desfaçatez, – respondeu outro ministro, irritado com a quantidade de vezes que o Tocantins tem aprontado das suas no Supremo.

O Tocantins viu que estava sob intenso bombardeio e tentou abreviar a discussão.

- Tá bom, tá bom. Mas vocês vão julgar ou não esse questionamento que eu trouxe agora?

- Deixe essa ADI aqui. Vamos olhá-la. Mas vou logo avisando, se for mais alguma tentativa de agressão à Constituição, nós iremos puni-lo severamente.

- Mas dessa vez tenho certeza que eu vou ganhar, – disse, convicto, o Tocantins. - Até mais, Supremo.

Depois que o Tocantins saiu, os ministros do Supremo se olharam com tristeza:

- Quando é que o Tocantins vai tomar jeito, ein?

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